Tamborzão, conheça a origem do ritmo que comanda o funk

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A origem exata do tamborzão, o ritmo que hoje comanda o funk carioca, é controversa. Não há arquivos digitais ou datas que comprovem a autoria deste ou daquele produtor. Mas a maioria dos artistas acredita que a batida surgiu na zona oeste do Rio de Janeiro para conquistar o mundo. Foi criada pelo ex-locutor, produtor e DJ carioca, Luciano Oliveira. Ele procurava, no final da década de 90, uma pitada diferente pro funk. O que movia a pesquisa de Luciano era sua vontade de colocar sons percussivos nos timbres eletrônicos utilizados até então. Sua descoberta numa bateria eletrônica modelo R-8 foi um som de atabaque bem grave. Esse atabaque desencadeou uma revolução na produção do funk carioca. Luciano fez um loop (programação que repete o som constantemente) do atabaque e batizou o som de “atabacão”.

“A principal diferença do “atabacão” em relação ao funk da época, foi a percussão”, revela. A criação do DJ Luciano trouxe, além do atabaque, mais batidas por minuto pro funk carioca, de 124 pulou para 129 bpms. O músico não imaginava que sua invenção seria o funk de hoje em dia, por isso não se preocupou em arquivar o beat original. “Se eu soubesse que a batida que eu criei seria o funk atual, hoje estaria rico”. Pra você ter uma idéia, os produtores e DJs entrevistados, inclusive o próprio Luciano, não têm esse som na gaveta. No decorrer dos últimos anos, vários pais já apareceram pra brigar pelo DNA do tamborzão. Mas é fato o consenso entre produtores e DJs de que Luciano Oliveira detém o pátrio poder do batida.

DJ Luciano, o criador do tamborzão.

O primeiro registro fonográfico do “atabacão” foi gravado por uma dupla de MCs, que não tá mais na ativa, chamada Tito e Xandão. “Rap do Comari”, que tem produção do Luciano, foi lançada no disco “DJ Lugarino Apresenta as Melhores da Zona Oeste”, de 98. Mas não foi com essa música que o “atabacão” caiu na boca do povo. No mesmo ano, DJ Cabide, na época integrante da equipe de som A Gota, teve acesso ao novo ritmo e produziu a montagem “UUU a Gota”. A montagem arrebentou na Rádio Imprensa carioca. “O tamborzão fez sucesso porque ele tem muito contratempo e é isso que faz o povo dançar”, explica Cabide.

DJ Cabide e seus equipamentos.

Mas foi na Cidade de Deus que o “atabacão” foi apelidado de tamborzão. Foi durante o Festival de Galeras do Coroados, em 2000, que o público passou a chamar a batida de tamborzão. Segundo o DJ e produtor Duda, um dos organizadores desse evento, o Festival revelou gente como Bonde do Vinho, Deise Tigrona e Tati Quebra Barraco. DJ Duda já trabalhou com os citados acima e também produziu o tamborzão que virou hit com o Bonde do Tigrão, “Cerol na Mão”.

Hoje, o tamborzão comanda o ritmo do funk, é a releitura brasileira dos beats norte-americanos que eram utilizados anteriormente. A essência do funk carioca é o sampler e as bases eram retiradas de álbuns como “808 Voltmix” do DJ Battery Brian e do “The Challenger” do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde. O instrumental desses discos eram tocados nos bailes funks cariocas pelos DJs e os MCs cantavam em cima.

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Segundo o produtor e DJ Sany Pitbull, que começou na pioneira equipe Live e já fez várias turnês internacionais, “com o tamborzão a África falou mais alto”. Esse ritmo traz elementos das raízes musicais africanas pro funk carioca, como congas, tambor de candomblé, atabaques e berimbaus. Com o tamborzão os produtores desenvolveram um processo mais elaborado. As músicas são criadas do início ao fim com a utilização de samplers, timbres e elementos musicais de diversas vertentes.

DJ Sany Pitbull, reconhecido internacionalmente, cruzou fronteiras e é admirado em todo mundo.

O “maestro” Sany sabe o que faz. Ele puxou o bonde do festival Red Bull Funk Se, que invadiu diversas capitais brasileiras este ano. O DJ ainda comanda o estúdio de produção der Vigário Geral, onde ensina a molecada da quebrada a manusear a “sagrada MPC”.

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A montagem de samplers durante a discotecagem é uma tradição no funk carioca. Uma das primeiras equipes de som a fazer montagem ao vivo foi a pioneira Cash Box. No início dos anos 90, sem acesso à tecnologia essa montagem era feita com fitas. “Enquanto a música rodava a gente soltava as vinhetas com os nomes das equipes em fitas cassete”, explica DJ Luciano. Como nessa época os bailes de galeras em clubes ainda tavam no auge, o barato era fazer as montagens com vinhetas que exaltavam os nomes das equipes. Com a proibição dos bailes funk em clubes devido às brigas, em meados dos anos 90, o funk encontra refúgio nas favelas. O novo ambiente faz com que as letras, antes hinos das equipes e das galeras, passem a tratar do cotidiano das quebradas. A música também assimila essa mudança e os batuques de fundos de quintal tornam-se a grande influência.

A percussão do tamborzão aliada ao acesso à tecnologia dá início a um novo formato de discotecagem. Mais orgânica, transforma o DJ num batuqueiro que com os dedos comanda o ritmo da música na bateria eletrônica MPC. DJ Cabide só faz bailes com bateria eletrônica e é conhecido por sua habilidade em tocar com os pés. Cabide começou a tocar em baile funk há quinze anos em São Gonçalo, bairro de Niterói, Rio de Janeiro. É responsável pela montagem que divulgou o tamborzão e já produziu bases para Mr. Catra e MC Frank. Cabide também bebe em várias fontes quando produz seu som, uma delas é a música italiana. “Já produzi tamborzão até com sons de tiros, pego vários timbres diferentes monto uma percussão, depois junto o atabaque”, revela o DJ. O resultado dessa mistura é um som monstruoso, neurótico, o grave bate no peito. “Quem não toca tamborzão hoje não faz a massa balançar”, afirma Cabide.

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O fato de o tamborzão ser a soma da musicalidade africana e da criatividade brasileira é a explicação pro seu sucesso. Como acontece em outros estilos musicais, o tamborzão absorveu outros gêneros. Sany Pitbull produz tamborzões com música clássica, heavy metal, macuco, bossa nova, forró e até pagode. “Eu sempre ouvi vários estilos e dá pra misturar de tudo no tamborzão”, afirma. O primeiro selo especializado no tamborzão, foi o Carioca Funk Clube, comandado pela nossa parceira – já falecida – Adriana Pittigliani, infelizmente não durou até os dias de hoje. Ela foi responsável por trazer a tona todo este movimento de musicalidade dentro do funk por meio das conversas que desenvolvia com os artistas.

Mas mesmo sem o reconhecimento merecido no Brasil, o tamborzão ultrapassou fronteiras, foi considerado pelo jornal New York Times como “o novo samba”. Afrika Bambaataa também se rendeu ao tamborzão. O responsável pelo remix “versão tambor” de “B more shake” é o produtor e DJ carioca Mavi. O som foi lançado num single do Bambaataa em 2005, e tá entre as top 50 da Billboard. Quando Mavi foi convidado pra fazer esse remix iria montar um eletro, mas o produtor não aguentou e colocou o tamborzão por cima. “Enviei duas versões, o eletro e o tamborzão, o Bambaataa gostou da sugestão e as duas foram lançadas no mesmo single”.

Sany Pitbull e DJ Mavi, foto de Adriana Pittiglianni.Sany Pitbull e DJ Mavi fotografados por Adriana Pittiglianni.

O produtor e DJ Sandrinho é representante da invasão do ritmo nas pistas do mundo, hoje ele é DJ de Mr. Catra. Ele já fez mais de 12 turnês internacionais. Seu primeiro contato com a batida foi há seis anos, quando tocou com Catra. “O Catra gostava de incluir percussões nos shows aí comecei a me interessar pelo tamborzão”. As produções do Sandrinho têm influências de house, drum n´bass, soul e MPB. Ele já fez montagens pra MCs, como Pé de Pano e Duda do Borel.

DJ Sandrinho, um dos grandes representantes do gênero.

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O tamborzão inaugura o jeitinho brasileiro de produzir o funk carioca, que já foi muito acusado de não possuir autenticidade. Talvez porque sua inspiração tava em beats norte-americanos ou até mesmo pela influência pesada do estilo miami bass. Mas com o tamborzão, começou uma nova fase, dessa vez com a cara do nosso país. Para o produtor Edgard, o tamborzão tem um estilo de produção característico brasileiro. “É diferente de tudo que a gente vê na música hoje, é primitivo e único”. Esse estilo primitivo de batida só poderia ser produzido por esses DJs, que instintivamente recriam o funk, influenciados pelo suingue que já tá no sangue. “A grande diferença do tamborzão está na levada e nos timbres dos instrumentos”, afirma.

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No Brasil, a mídia em geral negou a existência desse cenário e, como outros estilos de música que vivem nos guetos, o funk carioca desenvolveu numa indústria paralela. O circuito dos bailes em clubes e comunidades cariocas arrastam cerca de 250 mil pessoas por final de semana. Os DJs, produtores e MCs são ícones pra suas comunidades e cada baile é um celebração semanal do cotidiano da quebrada. Esses representantes da nova batucada brasileira fazem os europeus balançarem o popozão, um universo que pertence a um mercado promissor e que os gringos, como DJ Diplo e MIA, já entenderam. Como diz o refrão famoso da dupla Amilcka e Chocolate “É som de preto, de favelado, mas quando toca niguém fica parado”.

A prova disso é o sucesso do DJ Zé Colméia, na terra da garoa, nascido no Rio de Janeiro, o produtor e também compositor foi um dos responsáveis pela construção da cena do funk em São Paulo. Quando chegou na capital paulista passou por várias situações e enfrentou preconceito.  “Cheguei a passar fome”, revela Zé Colméia. Atualmente é o DJ mais requisitado da cidade, toca em diversas casas noturnas e você pode conferir o trabalho dele aqui no DoLadoDeCá na seção de podcasts do site.

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Mais informações:

http://www.zecolmeia.com.br
http://www.djmavi.com
http://www.cabidedj.com
http://www.myspace.com/sanypitbull
http://www.myspace.com/djedgarjr
http://www.myspace.com/sandrinhodjrio

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