“Quase Nada está de volta” por Diego Viñas

Durante um bate papo, regado a cerveja com direito à caneca personalizada do time, o pessoal foi contando todos os detalhes da história do Quase Nada.

Depois de ficar um tempão sem dividir as histórias do terrão, não poderia voltar com maior estilo. No meu retorno, contar a história de um time que também voltou. Estive com a rapaziada do Quase Nada FC, equipe de várzea que representa, hoje, dois bairros paulistas: Morro Doce e Pirituba.

Num frio danado, a gente se encontrou numa padaria perto da sede do time que tem muita história pra contar mesmo tão jovem. Fundado em 1º de janeiro de 2006, o Quase Nada chegou a ficar mais de um ano parado, sem atividades.

Estava ao lado dessa turma aí da foto. Menos Thiago, um dos diretores que não pode comparecer. Da esquerda para a direita, os fundadores, o vice-presidente Edilson Mendes (Dica), e o presidente Ricardo Carvalho (Ricardinho); os diretores Júlio Garrido, Rafael Sandes, Carlinhos e Bruno; além de Vitor que, segundo o pessoal, é o carregador de água e bandeira oficial do time.

Fundação
Durante o bate papo, regado a cerveja com direito à caneca personalizada do time, o pessoal foi contando todos os detalhes da história do Quase Nada. Então, o primeiro foi perguntar como surgiu o time. Mas como é de lei, veio a primeira piada.

“O Ricardinho fala que é presidente, mas na hora de pagar a conta ele sempre renuncia (risos). Ele deixa de ser presidente na hora de pagar a conta e pede o cargo de volta quando vai todo mundo embora (risos)”, entregou o amigo de longa data, Júlio.

Ricardinho contou que o time foi montado junto com Dica. “A gente sempre fazia no bairro (Morre Doce) uma partida de solteiros contra casados no último dia do ano. Quem perdesse, pagava a cerveja pra todo mundo. Até que um dia resolvemos oficializar a brincadeira montando uma equipe mesmo”, lembrou o presidente.

Depois dessa decisão, o time ficou mais um ano (2005) arrecadando dinheiro para uniforme. Naquele ano, um dos maiores acontecimentos do futebol profissional inspirou a equipe para escolher o escudo e as cores do fardamento.

“Na época, o Grêmio (de Porto Alegre) fez aquele jogo contra o Náutico para voltar à Série A. Aquela famosa “Batalha dos Aflitos” nos inspirou”, contou Ricardo.

“Pode ver que nosso distintivo é parecido com o do Grêmio. As cores também”, completou Rafael.

O primeiro uniforme custou ao Quase Nada R$ 900. E Dica e Ricardinho lembram bem das pessoas que mais ajudaram na difícil fundação do time. “Agradecemos muito ao Enoc, da Família Tupi City; a diretoria do Danúbio da Freguesia do Ó; ao Kaká e William do Vida Loka da Brasilândia; Henrique do Nove de Julho da Casa Verde; Rogério do Jardim das Palmas… foram essas nossas primeiras parceirias na várzea”.

Por que “Quase Nada”?
Na várzea, várias equipes são conhecidas por terem nomes curiosos. Eu não podia perdoar o pessoal do Quase Nada. Mas dessa vez, a explicação foi muito legal, né não presidente?

“O bairro sempre teve pouca estrutura. Todos os moradores falavam que no bairro não tinha nada pra fazer. Então, pensei que se a gente montasse um time, não ia resolver tudo, mas ia começar a ter alguma coisa. Então, o bairro de não ter nada para ter o Quase Nada FC”, contou Ricardinho.

Primeiros jogos… quer dizer, campeonato
O Quase Nada estreou em um quase tudo. Ao invés do famoso amistoso para inaugurar camisa e tudo, eles foram logo para uma competição: a Copa da Amizade. Vitória de 3 a 1 sobre os Pequeninos de Perus, no Estrela do Jaraguá.

Dica lembrou que o Quase Nada entrou como convidado depois da desistência de participar do Vasquinho do Morro Doce. Já o presidente, lembra que apesar disso, foi uma grande estreia.

“Chegamos à final invictos naquele campeonato. Aliás, perdemos o título invictos porque a final acabou em 1 a 1 e só perdemos nos pênaltis por 3 a 2 para o Saturno de Perus”, contou Ricardinho.

Saindo para o intervalo
Para quem conhece o futebol de várzea, sabe o quanto é interessante para políticos do bairro conseguir o apoio de algumas equipes. Fazendo melhorias ou não, é muito comum essa prática. O problema é quando dois políticos de interesses diferentes acabam atrapalhando o andamento do clube.

“Veio um político e fechou uma parceria com a gente. Depois, veio outro e prometeu campo, camisa, melhorias para o bairro. Isso dividiu nosso grupo. Parte do time começou a apoiar o outro político e a coisa começou a rachar”, explicou Ricardinho.

Rafael Sandes, que tem experiência em diretoria de outros times, conhece bem que uma parceria como essa pode ser muito boa ou muito ruim para o esporte.

“Eu acho que o homem tem que ter palavra”, alertou Rafinha.

Foi um período muito ruim para o time e para o bairro. Aos poucos, o Quase Nada deixava suas atividades. Na região, não se tocava mais no nome do time.

Parceria Morro Doce x Pirituba
Enquanto o time estava parado, Ricardinho recebeu vários convites para atuar em outras diretorias, mas recusou todos. Um deles, foi o próprio Rafael, que na época era diretor do Vila Nova de Paquetá.

“Eu sempre chamava ele, mas não conseguia convencer esse teimoso (risos)”, lembrou Rafael.

Devagar e com paciência, como foi na fundação, o Quase Nada começava e renascer. Rafael já sonhava em montar uma nova equipe em Pirituba. No bairro vizinho, Dica e Ricardo ainda sonhavam com um retorno do Quase Nada. Por que não juntar as duas ideias?

“Foi assim que o Quase Nada voltou depois de mais de um ano parado. Resolvemos unir as duas quebradas. Hoje 50% dos jogadores são do Morro Doce e os outros 50 de Pirituba”, ressaltou Rafa Sandes.

Primeiro encontro na sede
Pense! Duas quebradas que mal se conheciam. Um time que já tinha sofrido uma queda. O momento parecia perigoso para uma parceria.

“Então, a gente fez o primeiro jogo na volta. No campo, ninguém se conhecia, mas o entrosamento foi de primeira. Perdemos só de 2 a 1 para o União Piqueri. Mas o negócio aconteceu mesmo depois do jogo, no Bar do Mineiro”, falou Rafael.

O Bar do Mineiro é um dos apoiadores do Quase Nada. Naquele dia, o retorno do time ao futebol, o estabelecimento recebeu clientes do bairro e do Morre Doce, então desconhecidos. Foi um sucesso”

“Parecia que gente se conhecia há anos. Impressionante. Todo mundo dando risada. Coisa de irmão mesmo”, contou o diretor Júlio.

Jogos depois do retorno
Quase Nada 1 x 2 União Piqueri
Quase Nada 2 x 2 Satélite
Quase Nada 4 x 3 XXV de Agosto
Quase Nada 3 x 4 Santarém
Quase Nada 1 x 4 Corinthinhas da Vila Palmeiras
Quase Nada 0 x 1 Savica de Osasco
Quase Nada 0 x 1 Jaraguá
Quase Nada 3 x 0 Unidos da Vila Serventina de Osasco
Quase Nada 2 x 1 Flamengo de Piratininga

Próximos passos
No primeiro evento que o time fez após o retorno, eles venderam canecas personalizadas com o escudo do Quase Nada. A venda das canecas praticamente pagou o grupo de samba naquele dia.

“Com isso, conseguimos nos inscrever para mais uma competição: Torneio da Primavera, que acontece em outubro e novembro deste ano”, ressaltou Rafael.

O campeonato vai contar com 32 equipes da várzea paulista. Em campo, o time deve contar com Baiano no go;. Júlio e Xandão na zaga; Malão e Luquinhas pelas laterias; Dica. Thiago, Rodrigo e Roni pelo meio campo; e Del e Ricardo compondo o ataque. Rafinha é o técnico do Quase Nada.

Em outubro, o Quase Nada também vai organizar a festa das crianças na rua da sede. E o DoLadodeCá vai ficar atento para divulgar mais esse evento social e gratuito promovido pelos verdadeiros donos dos terrões de Sampa.

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