MC Galo SP apresenta o Funk Não é Apologia e o bonde QZL

MC Galo é um dos representantes do funk produzido em São Paulo, aos 22 anos, ele comanda o bonde QZL e o movimento Funk Não é Apologia onde abre espaço para novos talentos do funk que rimam sobre conscientização.

Quando e como você começou a cantar funk?
Comecei a cantar funk há cinco anos, gostava de ficar rimando sobre tudo que eu via, era até meio chato. Um dia meu amigo morreu e aí fiz a minha primeira música chamada “Fatos verídicos”, foi aí que o funk entrou na minha vida.

Quais são as suas influências musicais?
Eu amo o rap, gosto de samba, alguns rocks e funks dos anos 50, 70 e 80. Cada dia estes ritmos me influenciam mais. Pretendo um dia, depois que já tiver uma caminhada no funk, pegar vários estilos de música e colocar todos eles no meu funk e fazer remixes das minhas músicas.

Você representa qual região de São Paulo?
Eu represento a zona leste de São Paulo, especificamente a Vila Ré, mas já morei em mais de 10 bairros na zona leste.

Fala um pouco sobre o QZL?
O Quebrada Zona Leste (QZL) é uma coisa tão forte em minha vida e na de milhares de jovens que às vezes fica difícil até definir o que é. Começamos há seis anos, antigamente tinham muitos mais grupos iguais ao nosso, mas estes grupos que chamamos de bondes se confrontavam muito.
Então eu decidi com outro aliado que se chama Giu, criar um bonde que unisse todos estes bondes e todas as quebradas e então surgiu o QZL. Começamos a fazer algumas festas, criamos um logotipo e fizemos camisetas, a essência do QZl tá em compartilhar experiências com os jovens. Nós trabalhamos com a rua e não perdemos a essência dela, percebemos que os jovens precisam de atenção, e não apenas de ideologias, por isso sempre trocamos uma idéia. Mas sempre enfrentamos preconceito, principalmente dos parentes destes jovens, que muitas vezes falam que somos drogados. Por isso, muitas vezes convidamos os pais para participarem das reuniões do QZL também, onde discutimos vários temas relacionados a juventude e ao funk.

Imagem de Amostra do You Tube

Como funciona o movimento Funk não é Apologia?
O Funk não é Apologia surgiu na época em que vários MCs de funk foram acusados de fazer apologia ao crime. O objetivo é mostrar que temos melhores letras e que podemos mostrar nossos sentimentos verdadeiros, que a música feita com um sentimento pode ser um remédio que ajuda muitos, porque ela tem poder pra isso.
Pra fazer parte do movimento, o MC manda uma música com no máximo 2 minutos de duração pra nós, rimando sobre o tema Funk não é Apologia. As dez melhores rimas são premiadas com uma entrevista e gravações de algumas músicas no estúdio do QZL e nós ajudamos a divulgar o MC no cenário do funk. O melhor disso tudo é ver estes jovens provando pra si mesmos que conseguem ter destaque com letras conscientes.

Imagem de Amostra do You Tube

Como você vê os funks que abordam a apologia ao crime e a sacanagem explícita?
Eu sou um cara que escuta o proibidão, certo. Na minha visão, se você ta cantando num baile com mil pessoas e você começa a falar que drogas são boas e que o crime é bom, ali no meio vai ter algum cara que vai fazer isso porque ele é seu fã. Alguns podem até ter cabeça forte e não se envolver e podem interpretar apenas como uma realidade, mas existem aquelas pessoas que acabam seguindo aquilo. Aí, um cara da sua quebrada começa a se envolver com as drogas e com o crime e ele de repente morre. De quem é a culpa? Você pensa que sua que não, é claro!
Aí você começa a xingar tudo que é político, polícia e a sociedade, por aquilo ter acontecido. Em nenhum momento você parou pra analisar que pelo menos 1% de responsabilidade você tem em ter ajudado aquele cara a se envolver nisso. E que você não fez nada pra mudar aquela realidade.
Você não é obrigado a fazer letras de consciência, mas pelo menos tem que ter a consciência que não pode passar as mensagens erradas porque as comunidades já têm problemas demais.

Você acha que estes estilos contribuem positivamente pro crescimento do cenário do funk?
Eu tenho uma música que se chama “Jovens reflexo” porque nós somos reflexo do que os mais velhos plantaram. Você nunca olha pra uma pessoa, nunca dá atenção pra uma pessoa, mesmo ela estando na sua vida. De repente, aquela pessoa se torna revolucionária, mas do jeito dela. É assim que se sentem os muleques do funk proibidão.
Ele não vai querer liberdade porque ele acha que ele já tem, ele não vai querer se um Che Guevara mesmo por que ele nem sabe o que Che Guevara fez. Ele apenas vai olhar a situação a sua volta e narrar o que acontece. Ele vê o que a polícia faz na quebrada dele e não vai ser a favor dos policiais, ele não vai ser a favor do governo, e ele relata tudo o que acontece. Aí parece que o governo acorda, mas não pra nos ajudar e sim pra nos destruir, eles nem avaliam se alguma letra tem algo a dizer, não tão nem aí. Aprendemos com o cenário que estava a nossa volta e criamos nosso mundo, agora que o bonde tá formado eles ficam putos. Ao invés de integrar, ele preferem oprimir, xingar de marginal, mas esquecem que somos o reflexo do que nos ensinaram, do que a mídia em geral propagandeia.
Aí dizem que o funk é machista. E eu concordo. Mas você liga a televisão e assiste comerciais que expõem a mulher. O homem que tá assistindo pensa mais na mulher do que no produto. Você cresce vendo aquilo, são mensagens subliminares na sua mente. Aí quando o funk fala sobre isso, ele é machista, mas na verdade é só o reflexo da sociedade que é machista.
Alguém lembra o quanto os funks da antiga eram discriminados? A palavra funk era praticamente um palavrão na década de 50. Quando na década de 70, os músicos diziam pra você colocar mais “funk nisso”, queriam dizer que era pro ritmo ficar mais suingado, mais sensual.
Não to querendo dizer que o funk de hoje se compara com as músicas da antiga, mas que vários estilos já foram discriminados e hoje, o funk talvez seja o mais discriminado.

Você acha que o funk é muito discriminado?
Tudo que é criado pelo povo, de uma forma geral, não é considerado uma cultura pelo governo, somente quando é criado “para” o povo é que se torna cultura. Só que com o funk, nós podemos movimentar e mudar a vida de milhões de jovens. Mas se o funk não souber se movimentar pelo menos aqui em São Paulo, pra mostrar o lado positivo pro nosso povo e que somos capazes de realizar seremos sempre oprimidos.

Quais são seus próximos projetos?
Estamos com a intenção de levar o funk para as escolas, nós temos a linguagem do jovem, precisamos convencer o pessoal mais velho disso pra conseguir quebrar barreiras e tranformar tudo isso em frutos positivos. Eu sou mais um dos milhões de jovens do Brasil que ainda tá aprendendo muita coisa e aprendendo com os próprios erros também. Eu espero que quando eu estiver mais velho, não cometa os mesmos erros, não abandone a geração que é o futuro do nosso país.
Também estou preparando um vídeo sobre o Funk Não é Apologia, onde os MCs que passaram pelo projeto terão suas rimas divulgadas e também resgataremos neste projeto a história, os primórdios do funk.

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